5 de abril de 2009

O som da fome







Na sala escura do CineSesc, as imagens passam angustiosamente pela grande tela, narrando histórias reais. O andar apressado daquelas que vão em busca da única esperança, pelo menos para aquele dia. Mas, no lugar marcado a esperança encontra seu destino, a ausência do alimento. Por todo o país a alegria impera, pois é feriado de Carnaval, mas na Comunidade Santa Rita, no Estado do Ceará, o leite para as crianças não chegou. A pessoa responsável não estava disponível, talvez também estivesse comemorando a maior festa do país. Os passos de volta são mais angustiantes, pela estrada seca e deserta as mães voltam de mãos vazias.
Assim começa Garapa, documentário de José Padilha, que imagem a imagem, mostra a corriqueira luta de mais de 800 milhões de pessoas contra a própria fome. A câmera do diretor capta cada detalhe da vida dessas pessoas, humanizando as estatísticas. O barulho da colher na lata enferrujada e da garapa enchendo a mamadeira das crianças, o choro do menino com dor de dente, as moscas que já não incomodam, mesmo quando pousam sobre as feridas dos pequenos e o cigarro na mão de quem procura, desesperadamente preparar algo para matar a fome dos seus. As cenas se repetem incessantemente, todos os dias, durante anos...
No quintal, a plantação morta, o solo seco e as crianças correndo nuas. A vida dos que moram no sertão, onde a chuva quase nunca cai, se resume na busca pelo alimento. A emoção fica por conta da humildade dessas pessoas, da eterna esperança mesmo diante do nada e da mais pura inocência com que as crianças comem a garapa ou o feijão com farinha, sem conhecer outro sabor.
Garapa não aborda apenas a questão da fome, trata de todos os males, que um Estado ausente e uma sociedade hipócrita podem causar. Mostra como algumas das necessidades mais básicas, como saneamento básico e um sistema de saúde decente, não chegam a muitos lugares do país. As deficiências do nosso país estão estampadas em cada rosto que compõe o documentário, rostos sofridos e cansados de não ter alternativa, a não ser a fome.

31 de março de 2009

Além de trens e passageiros a Estação da Luz abre as portas para os amantes da música




Em pé, com as mãos sobre o teclado arriscando algumas notas, Roque Viana faz o que pede o adesivo colado nas laterais do piano, "Toque-me, sou teu". Instalado na Estação da Luz, o instrumento chama a atenção de todos que passam e atrai um grupo de apaixonados pela música, que faz da estação uma verdadeira sala de espetáculos. Sentados no banquinho, preso por um cabo de aço, eles se revesam para apresentar as músicas que mais gostam.
Entre eles, Viana é o único que não sabe tocar o instrumento, no entanto, era o que mais prestava atenção, ao som que saia de dentro da caixa de madeira. Morador da Ponte Pequena, bairro da Zona Norte da cidade, vai à Estação da Luz, todo final de semana, apenas para prestigiar a música. Observando atentamente a dança das mãos dos que tocam, ele diz que tem muita vontade de aprender, mas lamenta não ter dinheiro para as aulas. "As pessoas não tem acesso, o piano é um instrumento muito caro", diz Viana.
Há 37 anos ele saiu da Bahia e conheceu músicos como Ray Charles e Elton Jonh, só por conta do piano. "Eu cheguei em São Paulo com 17 anos e peguei os melhores anos da música, hoje só tem porcaria", conta Viana. Enquanto a música toma conta da estação, várias pessoas se aproximam para ver melhor o que acontece. Ao som de Raul Seixas, José Aparecido, mais um apaixonado por música, diz "que o piano é puro sentimento, toca a alma".
Ele acredita que o instrumento é a melhor coisa que aconteceu à Estação da Luz. A idéia de espalhar pianos em diversas regiões da cidade partiu do artista inglês Luke Jerran e faz parte da Mostra Sesc de Artes. O projeto acabou em outubro do ano passado, mas o piano continua lá, fazendo a alegria de pessoas como Viana e Aparecido.

28 de março de 2009

Lixo é transformado no pão de cada dia para milhares de brasileiros

Por Anelize Gabriela

Sessenta por cento do que é produzido em alimentos no Brasil vai para o lixo. O Banco de Alimentos vem lutando para diminuir esse percentual e atende mais de 22 mil pessoas em situação de insegurança alimentar

No Brasil há nitidamente um paradoxo: o país é o quarto produtor mundial de alimentos e o sexto em subnutrição. Diariamente são desperdiçados cerca de 39 milhões de quilos de alimentos. Esse número seria suficiente para alimentar 19 milhões de pessoas com as três refeições básicas: café da manhã, almoço e jantar.
Segundo Relatório Anual da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) de 2004, o problema da fome mata uma criança a cada 5 minutos no mundo.
Com intuito de mudar esse quadro, surgiu há 10 anos, a primeira iniciativa civil do país. A ONG Banco de Alimentos, combate o problema da fome e do desperdício de alimentos e ainda promove educação e cidadania.
O trabalho é feito de três maneiras distintas e interligadas. A primeira é a ação assistencial, chamada de colheita urbana. O objetivo é buscar alimentos onde sobra e entregar onde falta. Os mantimentos são recolhidos em carros com acondicionamento e refrigeração e entregues para instituições beneficiadas pela ONG.
Os doadores são os hortifrutis, sacolões, indústrias alimentícias e supermercados. Quem recebe são os albergues, casas de apoio, asilos e creches.

Os alimentos doados são as chamadas sobras de comercialização, que é tudo aquilo que não tem valor de venda, por estar próximo da data de validade. Ou as sobras de produção, que são os alimentos que não passaram no controle de qualidade da empresa, mas que ainda está próprio para consumo, dentro da data de validade, embalado e etiquetado.

"Para que a instituição seja aceita no programa de doações de alimentos é feito um pré-cadastro. Nesse processo, é avaliado se o alimento realmente tem seu aproveitamento integral na instituição e se a mesma fornece algo além de assistência social. Ela deve gerar alguma ação educativa no local, que reinsira esses cidadãos, atingidos pela fome na sociedade", diz Aline Rissatto Teixeira, nutricionista do Banco de Alimentos.



A segunda maneira é promover ações profiláticas e educativas, através de cursos e projetos. A terceira visa expandir o conhecimento sobre má distribuição, reaproveitamento e benefícios dos alimentos, para fora das áreas circunscritas da fome. Conscientizando também aqueles que não sofrem com o problema.
"Não aproveitamos os alimentos em sua totalidade, folhas e talos vão para o lixo. Jogamos fora saúde, oportunidade de ajudar quem precisa, prejudicamos a natureza, pois mesmo um lixo orgânico quando não tratado produz chorume, contaminando o solo. Nossa missão é conscientizar da importância do respeito ao ser humano e ao meio ambiente", explica Aline.


27 de março de 2009

Quando o lixo não faz o papel de lixo


Nas mãos do artesão militante as bitucas de cigarro ganham forma e nos lembram o quanto devemos cuidar do nosso planeta


Sentado no vão livre do Masp (Museu de Arte de São Paulo), fazendo arte, falando e gesticulando com muita desenvoltura e entusiasmo. Esse é Antonio José da Silva, um hippie que faz da arte, fruto das suas experiências, um canal de conscientização.

Piauí, como é conhecido, sai do Jardim Alegre, Zona Norte de São Paulo e vai até a Avenida Paulista, somente com um propósito, expressar sua indignação contra o desrespeito ao meio ambiente. Nas suas obras é possível enxergar seu amor pela natureza.

Usando bitucas de cigarro, ele criou o “Troféu da Morte”. Uma espécie de globo terrestre que representa o quanto nosso planeta está poluído. Mesmo dependendo do lixo, Piauí afirma que é muito triste ver tanta sujeira, “eu uso o lixo para fazer arte, mas não queria encontrá-lo nas ruas".

A idéia de fazer um protesto contra a sujeira surgiu, quando Piauí viu uma de suas filhas, brincar com uma bituca nas areias de Cananéia, Litoral Sul de São Paulo. A partir daí, começou a reparar nas pessoas e fez uma pesquisa onde constatou, que de 100 fumantes, somente três não jogaram os restos de cigarros no chão.

“A Terra está sentindo uma coceirinha em todos os cantos, por inteiro. Por que ela é viva", diz Piauí, ao explicar as conseqüências do lixo na natureza. Para ele, o importante é atingir o maior número possível de pessoas e segundo dados da Secretária de Estado da Saúde (SES), ele tem muito a fazer.

Apenas em São Paulo, mais de 60% dos fumantes consomem ao menos 40 cigarros por dia. Levando em consideração esses números, é possível ter uma idéia de quantas bitucas esses fumantes produzem diariamente.

A intenção de Piauí, não parece ser mesmo parar de protestar. A qualquer um que se aproxime, ele fala de suas idéias e projetos, sempre deixando transparecer seu inconformismo diante de tudo que vê.

Com a quantidade de bitucas de cigarro que recolheu nas ruas, o hippie fez dois Troféus da Morte. Um foi comprado por um canadense, que o levou para seu país e o outro circula pelas alamedas e prédios da região da Avenida Paulista.

24 de março de 2009

Pedaços da felicidade...

Quero um sonho para continuar a viver e uma esperança para continuar a sonhar.
Bons amigos para não deixar de acreditar, também um grande amor para compartilhar e apenas uma casa de frente para o mar!

13 de fevereiro de 2009

Fazer sentido...

...sentimento, sentir o que mais posso dizer? Esse vazio não é normal, não pode ser. Você acredita no fracasso de nossas relações?O que realmente te faz viver?
Ora, a vida não é feita de verdades absolutas, fingimos fazer parte de um grupo, de uma classe, de uma sociedade. Tudo isso se torna infinitamente ridículo quando pensamos na solidão de cada um, não na ausência de pessoas, mas na falta de sentimentos.
Você sabe me explicar o que é o amor ou a amizade? Sabe descrever a experiência de chorar em um colo, de ser útil a alguém? Já experimentou, só uma vez, abrir os braços de frente para o mar e sentir o vento tocar seu rosto enquanto sussurra o que realmente faz sentido?
Apresento-lhe a vida, apresento este constante pensar na utopia, ter a alma repleta de poesia, o pensamento longe e razão e emoção em completa harmonia. Apresento o pulsar do coração, a incontrolável vontade de ser e a inefável sensação de vida correndo nas veias. É irônico pensar, que não consigo expressar em palavras a grandeza da simplicidade que me faz feliz, o melhor a fazer é nem tentar, vou vivendo e quem sabe um dia, quando o coração sossegar.

Paradoxo

Quase não reconheço essa força que erradia a luz da esperança, ela é quase uma utopia, quase um sonho. Mas, nesse caso, quase é o mesmo que possível. Enxergo nos olhos de algumas pessoas a ternura de uma eterna criança e a serenidade de um Jesus e busco nesses olhos uma razão para não desistir, para reafirmar que esse quase é tudo, tudo o que sou capaz de fazer.
As palavras se fazem quase inexistentes diante de tanta inocência e ternura, que mesmo em face do abandono estão presentes, mesmo sob olhos tão tristes... Os sonhos foram feitos para se realizarem, o abraço para doar-se inteiramente na troca de calor e energia humanos, não quero acreditar que a humanidade tenha se esquecido disso. Não posso mais viver assim, como o vento que sopra sem rumo. Preciso encontrar meu refúgio, minha batalha, meu ideal. A humanidade se mostra tão grande, tão impensável e inatingível. Procuro agora as palavras soltas em minha mente, reorganizar meus pensamentos e conhecer meus sentimentos. Um mix de saudade, desespero, felicidade, solidão, esperança e dor.
Ah Deus, como desejo desamarrar minhas mãos, abrir meus olhos e buscar algo muito maior que isso. Será possível ler essas palavras? Consegue enxergar nas entrelinhas a divisão da minha alma? De um lado essa vontade de mudar tudo, acolher em meu coração a todos que sofrem sozinhos, do outro essa enorme saudade, que rasga o peito e faz pensar apenas em mim.

12 de fevereiro de 2009

30 de janeiro de 2009

Nesses encontros e desencontros que fazem a vida acontecer, me perco em cada esquina, em todas as noites de lua cheia, em olhares solitários e lembranças do passado. Quase não acredito nos rumos que a vida tomou, tudo parecia ser tão eterno, triste é reconhecer que eram apenas sensações juvenis.
Não posso afirmar com certeza o que sinto agora, por enquanto tudo é muito incerto. Novos rostos e velhas dores, além das inúmeras mais que aprendi a enxergar com o passar do tempo.

27 de janeiro de 2009

Bonecos ou humanos?

Quem passou pela Avenida Paulista, nesta segunda-feira (26.01) pode conhecer Antonio Carlos Miranda e seus bonecos. Não, não se trata de nenhuma peça de fantoches ou coisa parecida, o que se deu em frente ao Parque Trianon Masp é uma demonstração das grandes contrariedades humanas. Antonio Carlos esculpiu bonecos em forma de mendigos e os deixou lá, para quem os quisesse ver. Para completar a apresentação, o poeta Sandro Maciel recitava em um alto-falante, seus poemas que também tinham como tema moradores de rua.
A movimentação não cessou enquanto artitas e bonecos estavam por lá, todos queriam ver os mendigos virtuais. O que mais chamava a atenção dos transeuntes era a semelhança dos bonecos com seres humanos, mas quantas vezes também não fingimos passar diante de bonecos?
Os artistas realmente conseguiram chocar as pessoas, mas receio que não tenham atingido seus verdadeiros objetivos. Os espectadores não perceberam o significado daquele ato e não se deram conta de quão corriqueira é essa cena. No tempo em que estive lá, apenas vi flashes de câmeras e expressões de admiração, infelizmente nenhuma reflexão. Apenas Antonio Carlos fazia questão de lembrar dos verdadeiros marginalizados.
Foi preciso uma representação para as pessoas enxergarem o real, nada como viver numa sociedade de espetáculo!

Para conhecer um pouco mais: www.casagaleria.com.br

23 de janeiro de 2009

Poesia não feita

Não sei fazer poesia
Apenas admiro as pequenas coisas da vida
Assim como também o faz um poema
Que em leves palavras
Flutuando por meus ouvidos
Aliviam dores e reacendem esperanças.

Enquanto tudo acontece, na simplicidade dos seus pensamentos.
Encontro meu coração, minha beleza e meu lugar
Encontro também a reflexão
As lágrimas escorrem por algum lugar aqui dentro
Tão perdidas quanto eu

A confusão instaurada entre a vida e a entrega
Entre a estrada e o acolhimento
Ah! Senhor! O que fazer?
Como saber se estou certa ou apenas enganada pelo desejo?
Como gostaria de sentir todos os sorrisos em mim
Dissipar dores, amparar lágrimas inocentes e viver tudo em apenas uma vida
Ser tudo apenas em um templo, um espaço

7 de janeiro de 2009

Dores da Guerra

Mais uma vez o mundo está diante de mais uma selvageria. De mãos atadas assistimos o extermínio de mais uma parcela da humanidade. Mais que humanos essas pessoas são pais, mães e filhos. De novo, a outra parcela da humanidade, a parte bruta e ignorante, sacrifica a paz em favor de seus interesses. Não aprendemos nada com as lições do passado, não basta a insanidade de duas Guerras Mundiais, não chega a dor e as lágrimas dos que viram seus amados morrerem inocentemente.
Aqui do outro lado, a vida transcorre normalmente, assistimos às imagens da total destruição. É insano pensar que, a morte de 100 crianças não sensibilize, não machuque os corações dos donos do caos. Não se pode mensurar a agonia desses pais, ela não cabe em estatísticas nem fazem parte dos números dos horrores da Guerra.
Enquanto líderes mundiais se trancam em reuniões, vidas preciosas são perdidas. Não sentem que cada minuto é uma eternidade, não compreendem que não há tempo a perder e sim vidas. Quanto vale uma vida? Quanto vale um pequeno coração, que ao parar de pulsar mancha, mais uma vez, de sangue a história da humanidade?
A nós resta uma reflexão. Temos o livre arbitro, temos consciência de nossas ações e conseqüências, que nesse caso são lamentáveis e irreparáveis. A confiança em Deus justo e piedoso, talvez seja o que me leve a escrever essas palavras. De quem podemos esperar uma solução? Se o poder está nas mãos dos que causaram o problema?
Em meio ao desespero e agonia que, as lembranças das imagens me trazem, a única saída é orar, acreditar num conforto para as centenas de corações e amor para as poucas mentes que estão à frente da destruição.

4 de janeiro de 2009

Mais uma vez percebo a importância dos amigos e dos que nos querem bem. O tempo e a distâcia não apagam do coração e das lembranças os bons e maus momentos compartilhados com aqueles que deixaram marcas profundas e eternas em minha essência. Enquanto a saudade aumenta, cresce também a certeza de um mundo mais humano. Quase não acredito nesse sentimento tão forte, chego a não me reconhecer.
Dedico esses sentimentos aos antigos e novos amigos, aos que nem sempre estão por perto, aos que sempre tem um minuto para ouvir as eternas reclamações, aos que deixaram um grande vazio, que talvez um dia será preenchido. Aos que estão muito longe e aos que nunca mais voltarão. Confesso que todos fazem muita falta, as ruas já não são as mesmas, alguns dias passam sem fazer nenhum sentido, pois não encontro um lugar seguro para chorar. As velhas confidências deixaram de ser constantes, aqueles sonhos não se realizaram e algumas esperanças não resisitiram, deram lugar a uma cruel certeza de que nada é para sempre. O que escrevo nunca será o bastante para expressar o imenso vazio que esses anos deixaram. Espero, pelo menos, deixar claro que, ainda tento ser eu. Continuarei carregando palavras, canções e desejos.

18 de dezembro de 2008

Feliz Natal!


Mesmo com a correria de final de ano o Senado achou um tempinho para aprovar, nesta madrugada, a emenda que aumenta em, 7.343, o número de vereadores em todo o país. Pelo visto, quando se trata de seus interesses, e não da população, nossos representantes defendem com unhas e dentes seu território. A aprovação da emenda aconteceu em meio a muita discussão, o motivo da contenda? O vereador Ivan Duarte (PT-RS) disse à imprensa que é contra a aprovação da emenda, argumento suficientemente aceitável para despetar a ira dos que estavam no Senado, desde o começo da semana para a votação (isso sim pode ser considerado milagre natalino).
Enquanto isso, o país sofre com as constantes chuvas que submergem toda a esperança e dignidade brasileira. Nos jornais, imagens da força da natureza e da fragilidade humana. Mas imediatamente nossa atenção é desviada para o mega show da grande rainha pop, Madonna (mais um modelo importado dos Estados Unidos).
Sim, mais um final de ano e a história se repete. Na televisão, as mesmas porcarias, nas ruas a insana corrida contra o tempo para não esquecer nenhum presentinho e nossa constante inercia diante dos fatos que realmente interferem em nossa vida.

Eça de Queiroz!

" Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão."

13 de dezembro de 2008

Vinicius...

"Dentre os instrumentos criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de enterder a Lua"

7 de dezembro de 2008

Olá,




Vários sonhos podem ser considerados utópicos, mas com certeza “Mudar o mundo” é o primeiro dessa lista. Hoje o que é considerado utopia, há 40 anos, era tão real quanto a estúpida Guerra do Vietnã, onde milhares foram massacrados a troco de nada. O sentimento ia de encontro com o pensamento predominante, movimentos isolados nos quatro cantos do mundo, pregavam um mundo mais justo e humano.
Mas até onde esse desejo é utópico? Em 2000, representantes de 124 Estados decidiram tornar mais uma vez esse sonho real. Criaram oito metas, cuja execução, o mundo todo está comprometido. As metas refletem as necessidades mais urgentes da humanidade doente, uma doença que transforma o dinheiro e o poder em deuses e o ser humano num mero detalhe.
O soro para essa doença se encontra nas pequenas demonstrações de carinho e respeito mútuo. Os repórteres, editores e fotógrafos da revista Humanize, já assumiram o compromisso de mostrar o que está sendo feito para o cumprimento dessas metas. Cada ação é importante para mostrar que a vida é feita de coisas impossíveis, assim dizia Mario Quintana. "Se as coisas são inatingíveis... ora! Não é motivo para não quere-las... Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas!” ·
É estranho pensar que, entre tantas outras coisas, essas pessoas resolveram fazer a diferença num mundo onde tudo é muito igual. Onde o outro nunca pode ser você e onde existe uma imensa barreira entre os verdadeiros sentimentos e as ações. Elas simplesmente transcenderam as barreiras e a vida, acharam outro motivo para estar aqui. Diferentemente da maioria de nós, aceitaram ser o outro, num simples gesto de se abaixar, segurar a mão e caminhar junto.Mais do que contar histórias, nossas matérias convidam a uma reflexão maior e a pensar um mundo sob outras perspectivas. Cada pensamento estrutura uma ação, então basta apenas colocá-la em prática. O velho discurso de que problemas sempre existirão, já foi dito amiúde pelos céticos racionais da história. Então por que não deixar a construção de um novo mundo nas mãos dos sonhadores de plantão?

12 de novembro de 2008

Uma casa do tamanho de São Paulo

A cozinha são os bares da cidade, o sofá cede lugar ao pequeno banco de madeira e os transeuntes são os vizinhos. Seu João deixa a cidade de Francisco Morato antes do sol nascer e faz das ruas da cidade uma segunda casa


Uma cama e um armário é tudo o que espera por ele em sua casa em Francisco Morato. Ele não precisa de mais nada, sua maior carência é não ter alguém para compartilhar conversas e sentimentos. Seus atos e palavras traduzem o medo e a repulsa da solidão. No meio de dezenas de rostos o seu destoa entre a multidão que mais parece um exército marchando para lugar nenhum. Mas ao mesmo tempo ele está esquecido, num lugar bem abaixo de nossa visão.
Sempre sentado no mesmo lugar, é muito raro não encontrá-lo em baixo da árvore em frente ao Parque Trianon Masp. De longe já reconheço sua silhueta. Os poucos cabelos brancos contrastam com a pele queimada do Sol e a força de suas expressões faciais, que nem mesmo as marcas deixadas pelo tempo conseguiram encobrir. Quem o vê, nem imagina que o motivo maior de sua permanência nas ruas é afugentar as lembranças de um passado marcado por grandes perdas. Na frieza dos asfaltos dos grandes centros urbanos encontra uma alternativa, um refúgio para a solidão.
O senhor de aparência frágil, que pede esmolas traz consigo um potinho, onde as pessoas depositam o dinheiro doado, um banquinho sobre o qual se senta, uma mochila com algumas coisas para passar o dia e um sorriso sincero que só percebi, quando me aproximei. Seu nome é João Jacob, dois apóstolos de Cristo também tinham esses mesmos nomes, detalhe que ele faz questão de lembrar.

As perdas do caminho
São José do Rio Preto, cidade das lavouras de café, é também o lugar que viu seu João Jacob nascer, há 86 anos. Foi dessas terras
repletas de café que seu pai tirou o sustento da pequena família, sua mulher e apenas um filho. Aos 12 anos, o menino viu sua família ficar menor ainda, seu pai sofrera um infarto e o deixara com a responsabilidade de ser o único homem da casa e conseqüentemente, com a obrigação de sustentar sua mãe. Abandonou a escola e, seguindo a mesma profissão do pai, passava os dias nas lavouras de café.
O trabalho na lavoura além de sustentar a casa, também o fez forte. Seu João fala com orgulho e tristeza da força física que tinha. Hoje seus olhos se enchem de lágrimas ao se lembrar que além de não ter um braço, também envelheceu sozinho. Mas as oito décadas de vida, só são denunciadas pela sua aparência, a mão entrevada pela artrite e os pés inchados e cinzentos que a falta de circulação do sangue deixa de lembrança. A alma de seu João traz uma vontade imensa de viver e ao mesmo tempo uma tristeza que refletem em seus olhos.
“Minha mãe saia, então eu deixava tudo limpinha para ela”
Sua vida é marcada pela morte das pessoas que amou, além do pai, sua mãe também o deixou muito cedo, com 15 anos seu João se viu sozinho no mundo. Mas o costume das pequenas cidades do interior, onde as pessoas se casam muito cedo, o ajudou a achar conforto em sua esposa.
Dez anos depois, a vida corria normal, seu João trabalhava na lavoura, tinha uma casa, uma mulher e filhos. Até o dia em que ele perde mais uma vez. Enquanto trabalhava no cafezal, fora mordido por uma cobra de café, espécie muito comum nessas plantações, que pode ser facilmente confundida com as folhas por sua cor verde. A falta de informação e de cuidados necessários fizeram com que a mordida se transformasse em uma gangrena, sem chance de salvar seu braço.
Hoje seu João é aposentado e sabe se cuidar muito bem sem um dos braços, ele pega ônibus sozinho, vai ao médico e cuida da casa. Ele conta que pede esmolas para completar a renda, pois toma muitos remédios e ainda ajuda a cuidar dos seis netos, que moram no mesmo quintal. Apesar dos 13 filhos, dez do primeiro casamento e três do segundo, as crianças e o filho são os únicos parentes com quem seu João tem contato. Porém, seu filho parece não perceber a imensa falta que faz ao pai.

Hora de esquecer
Cada um tem uma história, algumas são difíceis de acreditar e a da vida de seu João é uma dessas, não que ele tenha realizado grandes feitos ou coisa parecida. Ele apenas passou e passa pela vida carregando feridas que resultaram na grande solidão que sente.

“Na vida só tive sofrimento”

Depois de perder a primeira esposa e um dos filhos, fatos que não gosta muito de comentar, ele decidiu ir embora de São José do Rio Preto, na esperança de deixar para trás todas as tristezas que a cidade fora testemunha. Esses acontecimentos deixaram muitas dores em seu João e até hoje ele não pensa em voltar para o local onde nasceu. “Estou desgostoso de voltar para lá”.
Trocou São José pela cidade de Santos e foi no litoral que ele achou um novo amor. Sua segunda esposa, Antonia, morava no mesmo prédio que se instalara assim que chegou na cidade portuária. Casada e com um filho pequeno, ela vivia ameaçada pelo marido que bebia muito. Depois de algum tempo de conversa eles decidiram viver juntos e o lugar escolhido foi a capital de São Paulo.
Para sustentar a nova família que ganhara, ele trabalhava como camelô. Tinha uma barraca onde vendia miudezas, mas como não conseguira a licença para trabalhar a fiscalização levou toda sua mercadoria. Foi a partir daí que seu João começou a pedir.

Vista de baixo
Sentada no chão, ao lado de seu João pude comprovar mais uma vez as dicotomias de nossa existência. Embaixo, onde apenas os pés alcançam, encontrei a maior expressão da palavra solidão, significado que dicionário algum conseguirá exprimir. Em cima, no mundo das aparências, são poucos os que conseguem perceber o pedido de atenção que sai não da boca, mas sim dos olhos de seu João, o egoísmo e a pressa de um mundo cada vez mais exigente, muitas vezes não deixam percebê-lo.
Em nossas conversas seu João deixa transparecer todo o desespero por estar sozinho, numa mistura de desabafo e súplica, ele fala que prefere o movimento da rua às paredes mudas de sua casa. Porém, a solidão de seu João não é dessas que levam as pessoas ao enclausuramento. Ao contrário, o simpático senhor não alimenta esse sentimento e busca esquecê-lo em cada esquina, nas conversas com quem se aproxima e nas amizades que conquistou nessas quase três décadas de mendicância.
Ele intercala suas histórias entre o passado e o presente. Hoje a companhia do café-da-manhã é o atendente do bar, almoça e passa a maior parte de sua vida nas ruas. Tem lugares fixos para pedir, vai a quase todas as festas religiosas da cidade, assiste às missas e faz amizades aonde vai. “O pessoal gosta muito de mim, eles me ajudam muito, tudo o que tenho é ganhado.”
“O que vou ficar fazendo em casa sozinho, olhando para as paredes?”
Quando volta ao passado, mais uma vez seus olhos se enchem de lágrimas. “Eu estava com ela na ambulância quando o médico entrou e falou que não tinha mais nada a fazer, a mulher já está morta”. Foi assim que seu João perdeu sua última esposa. Ela tinha diabetes, mas não sabia, adorava comer doces e ele sempre os trazia para ela. Essa foi uma das poucas vezes que vi seu João chorar, enquanto ouvia as histórias de sua vida.
Seu João pede esmolas há aproximadamente 30 anos, tempo bastante para se acostumar com os olhares dos quais é alvo. Sentado no pequeno banco ele se sente em casa, toma os remédios, come e até cochila. Por duas vezes precisei acordá-lo para conversamos. Na primeira vez que me sentei ao seu lado, era impossível não perceber a reação das demais pessoas, os olhares variavam entre pena, indiferença, solidariedade e medo. Mas o pior de tudo é, que muitas vezes ele não é visto.
Ao final de cada conversa, enquanto me distancio do pequeno mundo solitário de seu João, vejo sua silhueta mais uma vez se afastar, outra vez misturada entre as dezenas de rostos que aparentemente não dizem nada.

4 de outubro de 2008

Dores da alma

De dentro do quarto improvisado no pequeno barraco, a criança chora e na cozinha a mãe também o faz. Diante da mesa vazia e do descaso da humanidade, as lágrimas se transformam em súplicas de um coração materno. A Tv desligada não mostra sua história. A mãe sabe, apenas de ouvir falar, das cenas que a máquina narra, mas para ela e seu filho algumas cenas são tão reais e causam tanta dor. O pequeno anjo agora dorme e enquanto sonha, na mais bela inocência, aumenta o número dos que passam fome. O sono agora é um alívio, para ambos. Ela se pergunta, mas não acha o caminho, apenas vaga pela miséria da vida e de suas esperanças. O que fazer com tanto desespero? Onde curar a dor da fome e do coração? E lá fora, o vento gelado sopra as mesmas desilusões, se ao menos todos se ajudassem? Por que eles não tentam dividir também as dores e não somente os humanos? Agora outro filho, que não se sente filho, volta a chorar e desesperadamente tenta sonhar. Além da comida, o que lhe falta é também ternura, toda a preocupação contida no abraço quente da noite e a certeza de não saber o que é a solidão. O medo e o silêncio mortal das noites sobram a muitos, mas isso agora não importa, há coisas mais valiosas que um pedido de socorro. Quem sabe para o próximo mandato? O pequeno barraco reúne todas as dores do mundo, não é o mundo perfeito onde muitos pensam viver. Essa irritante inércia insiste em gritar que nem tudo é igual na dor, ao menos para isso ela serve. Felizmente somos capazes de medir os sofrimentos, só não capazes de senti-los e às vezes o sentido conceitual das relações humanas é praticado por que não o conhece. Mas, entre as angústias essas simples e serenas relações, enchem de esperança a noite das nuvens perfeitas e trazem de volta aquele antigo brilho do céu.

9 de agosto de 2008

Planetário

Depois de mais de 2 mil anos de evolução, finalmente o homem tem em suas mãos, o domínio da tecnologia . No ar seus imponentes prédios e construções monumentais, no mar seus navios e submarinos, e as estradas, essas já estão engarrafadas, intrafegáveis, contudo, todo cidadão tem o direito a ter seu veículo.
Mas eis que em meio a tanto “sucesso”, o destino se mostra irônico a nós, pobres mortais. Hoje, fui ao parque do Ibirapuera para ver a exposição “Filhos do Brasil”, que reúne fotos de diferentes artistas e lugares brasileiros. Trata-se de um retrato da infância em nosso país. Ao contrário do que deveria ser, essas imagens, mostram nossas crianças sem futuro, enfrentando a realidade da fome e do abandono.
Sob uma garoa fina e um vento gelado, as imagens estavam lá, para quem as quisesse ver, mas infelizmente, nem todos estavam interessados nos olhares, expressões e até mesmo, sorrisos destes pequenos brasileiros. As pessoas passavam indiferentes, talvez acostumadas com essas imagens no seu cotidiano.
A garoa aumentou e se transformou em chuva grossa, todos correram para se proteger sob o planetário. Lá dentro a apresentação do nosso céu, das mais de centenas de bilhões de estrelas e planetas e é exatamente ai, que mostramos nossa mediocridade, utilizamos a mesma tecnologia, que está destruindo nosso planeta, para conseguir enxergar as estrelas. Será que algum dia enxergaremos além de nossos próprios umbigos?