21 de abril de 2008

Razão na Base

Como será a vida de uma pessoa sem crenças? Ter o pensamento racional na base de seus princípios? Nossa reportagem conversou com dois ateus para entender melhor seu modo de pensar
Por Carlos Ferreira

Um senhor, bem humorado, sorridente, com seus cabelos brancos, 63 anos e óculos de aros redondos, conversando com um segurança do Centro Cultural São Paulo a espera de um repórter.
Este é Isaias Edson Sidney, dramaturgo, nascido em uma família católica, religião que ele mesmo seguiu fervorosamente até seus 14 anos, porém após ser apresentado ao espiritismo por seu irmão mais velho, começou a ler a bíblia com outro olhar, o olhar crítico e depois de estudar e conhecer outras filosofias se tornou ateu.
Isaias é um dos rostos da pesquisa realizada em 2004 pelo Ceris (Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais) onde foi identificado que 7,8% dos brasileiros são ateus ou sem religião.
Ser ateu como o próprio nome diz é não ter crença em um deus, seja ele Alah, Jeová, o Deus dos cristãos, ou outros nomes dados a esta divindade que é cultuada nas religiões monoteístas, ou seja, de apenas um deus supremo. O ateísmo é uma oposição ao teísmo, que tem como crença uma divindade como criadora da vida e esta pode ser demonstrado racionalmente, o deus dos teístas é conhecido como o deus dos filósofos.
O ateísmo vem aumentado conforme o tempo, mas no Brasil o preconceito contra estas pessoas é algo muito evidente. Em 2007 foi realizada uma pesquisa pela CBT/Sensus em parceria com a Revista Veja, nesta foi identificado que 59% dos entrevistados não elegeriam um candidato para o cargo de presidente da República se este fosse ateu, os negros tiveram 1% de rejeição, as mulheres 12% e os homossexuais 34%.
Para os pensamentos de Isaías esta pesquisa pode não ser tão concreta “Na condição de ateu, você pode ser o que quiser ter princípios éticos e não-éticos, qualquer um pode ser ateu”.
Isto pode ser confirmado com Paula Renata Pereira, 21, ex-estudante de publicidade e propaganda que hoje trabalha como operadora de cobrança.
Com idade e profissão diferentes de Isaías, Paula também é atéia e se declara como tal onde vai, percebe o preconceito citado nesta pesquisa e relata uma situação onde foi o personagem principal do preconceito de uma colega “Fui apresentada a uma colega e ao me declarar atéia, ela perguntou para uma de minhas amigas se não era perigoso andar em minha companhia”.


Filosofia de vida?

O ateísmo é considerado pela teologia um conceito filosófico, um conceito moderno, pois está critica a religião ocidental também é moderna.
Este conceito de filosofia começou a aparecer no século 18 com o Iluminismo “Os iluministas acreditavam que a existência de deus não podia ser demonstrada racionalmente”, diz Etienne Alfred Higuet, doutor em teologia pela Universite Catholique de Louvain na Bélgica, país em que nasceu e se formou.
Outra forma filosófica do ateísmo segundo Etienne são as filosofias de Sartre, principalmente no artigo “O existencialismo é o humanismo” O teólogo declara que “No contexto do artigo o ateísmo aparece como condição essencial para o existencialismo”.
Ao perguntar a Isaias e Paula este pensamento filosófico não condiz com a forma que encaram o ateísmo, dão menos importância à religião e a existência de um deus. Normalmente preferem não discutir questões religiosas com pessoas que possuem uma religião ou acreditem em divindades.
“Não é possível discutir sobre ateísmo com um teísta, pelo fato de que tudo esbarra na fé e em coisas que não possuem lógica ou razão”, afirma Isaías. Que também coloca a condição de que o ateísmo não se propaga como uma bandeira, filosofia de vida ou religião, e sim apenas a não existência de uma divindade suprema.
Paula ao ser questionada sobre o ateísmo ser um filosofia de vida se mostra muito sucinta “Não encaro minha condição de atéia como uma filosofia de vida, apenas não acredito em crenças e deuses”. Sobre discutir religião também é objetiva “Religião não se discuti, nestes casos não faz sentido, pessoas que possuem pensamentos tão distintos como fé e lógica chegarem a uma conclusão”.
Isto talvez explique o porquê do ateísmo não possuir uma sede ou organização onde são colocadas normas para uma pessoa se tornar atéia, ou viva em seu dia-a-dia uma doutrina ateísta.
O que pode ser encontrado são fóruns na internet discutindo sobre idéias de cada um, onde normalmente os ateus procuram conhecer melhor uns aos outros.
A divulgação das idéias ateístas é um dos principais fatores para o aumento da quantidade de ateus e para Isaías “O ateísmo, como não é uma filosofia de vida, não tem como objetivo combater a religião. Deve-se combater, e isto não é privilégio dos ateus, o obscurantismo religioso, a ignorância que leva as pessoas a cometerem atos insanos em nome da religião ou em nome de um deus” para que isto ocorra, à divulgação das idéias pode ser útil a partir do momento em que não for colocada em questão a existência ou não de divindades.


Ateísmo e Religião

Diversas batalhas já foram travadas, sejam elas filosóficas ou físicas entre o ateísmo e a religião, e estas ainda vêm acontecendo. Em alguns casos, tragédias são registradas por pessoas acharem que sua religião ou fé foram ofendidas por outras. Um destes episódios foi uma sátira realizada com 12 caricaturas de Maomé divulgadas em um jornal da Dinamarca. Os cartunistas dinamarqueses foram ameaçados de morte pela comunidade islâmica, trazendo consigo muitas manifestações contra o jornal que publicou as caricaturas.
Para Isaías estas atitudes são barbaridades, coisas que poderiam não acontecer, mas entende isto como um processo de evolução “As guerras religiosas são parte da ignorância do homem. O homem por si só é apenas isto que vemos mais animal do que ser pensante, não é o anjo decaído, mas sim o animal evoluído e ainda não concluído que está em continuo processo de evolução. A existência de deus é um erro da humanidade poderia não ter ocorrido, mas aconteceu”.
A existência de deuses e divindades pode ser datada a partir do surgimento de mitos, que são explicações para a realidade que aquela sociedade se encontra, estas explicações não possuem nenhum embasamento teórico ou cientifico que comprovem suas afirmações.
As primeiras religiões são as que hoje conhecemos como mitologia, conjuntos de mitos que explicam a cultura da sociedade, as religiões que hoje permanecem em nossas culturas também são baseadas em mitos e figuras de linguagem da época em que foi idealizada ou escrita.
A questão da existência de deuses ou entidades divinas já perdura há séculos na humanidade se são verdades ou não, cabe a cada um chegar a uma conclusão, ou permanecerem como agnósticos, pessoas que nem acreditam e nem desacreditam na existência de Deus. Enquanto a sociedade decide suas opções religiosas, esperemos que ateus e religiosos de diferentes filosofias e etnias consigam manter um diálogo amigável e que as definições e os preconceitos contra ateus se desfaçam com o tempo e que as pessoas não sejam julgadas por sua religião ou a falta de uma.

Preconceito na história

A Inquisição, um dos atos mais sangrentos da Igreja Católica mostra que o preconceito religioso faz parte da história

Pessoas consideradas hereges, bruxos, ou que duvidavam da verdadeira fé pregada pela Igreja Católica, foram perseguidos pela Inquisição. Estes infiéis eram curandeiros, pequenos comerciantes e até mesmo católicos que excediam as regras da doutrina imposta pela Igreja.
A Inquisição foi um movimento que começou no sul da França contra os Cátaros, religiosos que reconheciam Jesus como um grande profeta, mas não filho de Deus, logo se tornou um movimento da Igreja Católica através do Papa Gregório IX, contra os infiéis a Inquisição teve grande poder na Espanha e também em Portugal.
No Brasil a Inquisição também foi realizada “Existia uma busca do diabo no Brasil colonial”, afirma José Paulo Germano, doutor em história pela USP.
Neste período no Brasil não havia pessoas que poderiam ser responsáveis pelo julgamento dos acusados, por este motivo padres e religiosos do alto Clero da Espanha e de Portugal vinham ao país “Estes inquisidores, já vinham com os instrumentos de tortura e questionamentos prontos de seu país de origem”, afirma Germano.
A punição normalmente era a pena de morte realizada através do fogo, o ato de queimar o acusado tem duas explicações. “Nesta época existia uma grande crença na mistificação e se acreditava que o fogo era o único capaz de acabar com esta impuridade do condenado”, diz Germano, outro fator importante é a não interferência direta do homem na morte do individuo, uma forma de punição que a Igreja encontrou como purificação.Hoje a Igreja sente por estes atos realizados, o Papa João Paulo II em 2000 pediu desculpas ao povo em nome da Igreja pela Inquisição através de uma carta. Estima-se que 25 mil pessoas foram mortas neste período, o que é um número relevante para época, que contava com uma população aproximada de 16 milhões de pessoas.

2 comentários:

Beto disse...

Parabéns Michelle e Carlos,
Nesta reportagem vocês apresentam a real junção do repórter, que é de transmitir informação, adorei o tema, afinal, considero-me cético (não uso o termo Ateu, pois gera preconceito às vezes). Concordo com o entrevistado, quando diz que pensar em Existencialismo é fundamental para que todos saibam ser humano, mas penso que os religiosos (Árabes) devem ser respeitados pela fé que possuem. Todos nós (religiosos ou não) somos pensadores, procuramos respostas para nossas perguntas existências, as quais, não foram respondidas até agora. O que podemos fazer até lá, com respeito e tolerância, é aceitar as diferenças, sendo a única certeza que nos dará Unidade/Civilização. Mas uma vez, parabéns!

Mi disse...

Muito obrigada Beto, mas acho que quem merece mesmo é o Carlos, pois foi ele quem teve coragem de tocar em um tema tão polêmico.
Concordo que o conceito "Ateu" é alvo de muito preconceito, pois a ignorância gera a intolerância.
É preciso abrir a mente, conhecer vários mundos e realidades, é tão bonito e gratificante olhar o outro e enxergar um irmão.

Não falei que eu ia entrar no Blog?

Beijos