19 de abril de 2012

Oioporavo (escolhido)

A casa de pau a pique está fechada. Mas o entra e sai das kyringue (crianças) e mulheres e a cantoria que ecoa de dentro anuncia que todos estão lá. Apesar da tarde fria, o sábado é de festa para os moradores da Tekoa Pyau, no Pico do Jaraguá. Mesmo vivendo no coração de uma região que abriga uma das poucas vegetações remanescentes da mata atlântica na cidade de São Paulo, - aproximadamente cinco mil hectares – o espaço reservado aos cerca de 600 índios da aldeia é delimitado por muros que cercam toda a tribo.
Do lado de fora das paredes, folhas secas cobrem toda a calçada e é preciso ficar atento para não bater a cabeça em um dos galhos mais baixos das árvores do local. A rua segue asfaltada e sem muito movimento de pedestres até a entrada da aldeia, onde o chão é de terra batida. Lá dentro, reunidos na Opy’i (casa de rezas), os guaranis comemoram a chegada de mais um ano. O Batismo de Ervas é a cerimônia que marca o Arapya, o ano novo indígena. Sentado em um dos bancos da Opy’i e encostado nas paredes feitas de madeira e barro, Tupã fala do significado daquele dia. “As folhas de mate simbolizam toda a natureza e nós agradecemos o que passou e pedimos um ano melhor”. Na cultura indígena, os gelados ventos de agosto derrubam as folhas secas das árvores, para dar lugar a uma nova folhagem. O que também acontece com a vida na aldeia.
É também no primeiro dia do ano que as kyringue são batizadas. Elas só ganham uma nomeação indígena aos 7 anos, até lá, são chamadas pelo nome branco de registro. Isso porque, nos costumes antigos a pessoa começa a formar seu caráter e ter consciência do que é a partir dessa idade. Ao Pajé, cabe a responsabilidade de saber como cada um vai se chamar. Como líder espiritual, só ele tem esse poder.
O fim da tarde se aproxima e anuncia mais uma noite fria. Depois da cerimônia é o momento de todos voltarem para seus afazeres. Aos poucos, a Opy’i fica vazia e o burburinho Guarani perde força. Em poucos minutos, a harmonia de um coral formado unicamente por vozes femininas invade o lugar. Como forma de agradecimento, as três índias cantam e dançam em frente ao altar. No fundo da casa, apenas o Pagé e sua mulher mantém uma conversa tranquila e num gesto que se repete muitas vezes, Tupã acende um cachimbo de fumo de corda e começa a falar.
A prática de fumar cachimbo também é comum entre as mulheres e até mesmo, entre as crianças da tribo. É comum vê-las com o fumo na mão, quando estão na Opy’i ou quando conversam entre si. A tradição diz que quando um índio está fumando ele entra em ligação direta com Nhanderu (Deus), como se fizesse uma espécie de oração. Se o fumante cuspir, é sinal de que a prece está sendo atendida.
Entre eles, a famosa expressão “cachimbo da paz” tem razão de ser. Pois, quando um indígena vai visitar uma tribo de etnia diferente da sua, seja onde for ele sempre leva consigo seu fumo, pois o ato de acendê-lo significa que ele não veio com intenção de guerrear.


Um entre muitos

Os já pequenos e negros olhos de Tupã ficam ainda menores quando ele sorri. Entre uma palavra e outra, os brancos dentes do índio contrastam com a cor escura de sua pele e cabelos. Apesar da baixa estatura ele não é franzino, seus braços fortes e traços ainda jovens demonstram a pouca idade, que ele não sabe precisar. Cerca de 30 anos.
Para o povo Guarani, não faz sentido falar em semanas, meses, anos ou séculos. O calendário corre diferente e a natureza é a grande regente na contagem do tempo. A jacy (lua) determina a idade dos índios e a época de plantar, colher e caçar. A segunda lua cheia de agosto marca a chegada de mais um ano. A primeira menstruação indica o fim de um ciclo e o começo de outro, quando uma jovem se torna mulher.
Entre os índios da Tekoa Pyau, Tupã é um dos poucos que conversam com os juruás, como são chamados os homens brancos pelos moradores da tribo. E estes diálogos são sempre objetivos, ele não parece gostar muito de prolongar os assuntos. Mas apesar das poucas e diretas palavras, foi exatamente para ser um porta-voz dos índios no mundo branco que em 1992, ele saiu da aldeia Krukutu, no distante bairro de Parelheiros. Sua missão era aprender sobre os não índios. Para isso, passou cerca de cinco anos estudando em escolas públicas do centro da cidade de São Paulo. Aprendeu geografia, história, biologia, matemática e português. “Eu vim para o Jaraguá e morei um tempo sozinho. Quando cheguei aqui, não tinha muita gente, a aldeia era mais vazia, tinha só uma família,” conta.
Desde que chegou na Tekoa Pyau, Tupã foi trilhando seu caminho. Passado o tempo dos estudos e, apesar dos planos de voltar para a Krukutu, ele resolve ficar no Jaraguá, onde ajuda a fundar o CECI, Centro de Educação da Cultura Indígena. Uma escola diferenciada, onde as crianças têm como professores, os próprios índios. Lá, não existem salas de aula. Na prática, elas aprendem a cozinhar, fazer artesanato e até mesmo acender uma fogueira. “Aqui é livre, elas fazem o que querem”, diz Tupã.
Casado e pai de três filhos, hoje, junto com mais duas lideranças das aldeias Krukutu e Tenondé Porãe, ambas em Parelheiros, Tupã representa o Estado de São Paulo na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Um grupo formado por índios de todo o Brasil, que frequentemente vai à capital Federal conversar com ministros e senadores, em busca de soluções para os problemas de todos os povos.
Estes encontros sempre acontecem quando o povo indígena se sente incomodado ou insatisfeito com algo. “Quando tem alguma coisa que não estamos gostando, vamos para Brasília”, diz Tupã enquanto prepara seu cachimbo. Ele também fala que nunca antes o Palácio do Planalto esteve com as portas tão abertas para discutir as questões dos índios. “Antes do governo Lula era muito mais difícil conversar. Agora, tem alguns políticos interessados em nos ajudar.”
Tupã também atende as inúmeras visitas que a aldeia recebe diariamente. Enquanto acompanha os visitantes nas caminhadas pela aldeia, fala da cultura e dos costumes dos Guaranis. Com os representantes dos órgãos públicos, trata dos assuntos de interesse de toda a comunidade e fala dos livros escritos pelos seus irmãos. A ideia de ser um representante do povo Guarani no mundo branco partiu de seu avô Nivaldo, o cacique da aldeia Krukutu, em Parelheiros, onde Tupã passou sua infância. Desta época, as lembranças das ka'agu (florestas) e das trilhas, de como a mãe arrumava suas coisas, ainda despertam saudades. Ele foi criado apenas pela mãe, com a ajuda do avô. Sobre seu pai, o índio não pronuncia palavra alguma, como se ele não fosse fruto da união de dois corpos.
Ironicamente, o velho cacique ouviu os conselhos de um amigo branco da cidade e mandou seu único neto aprender das coisas e modos dos juruás. Falar a mesma língua, de igual para igual. Porém, não se pode dizer que a ideia de trocar a aldeia de Parelheiros pela do Jaraguá agradou o garoto. “Eu não queria vir para cá, mas meu avô falou que eu tinha que estudar para ajudar meu povo e como a última palavra é sempre dos mais velhos, obedeci”.
Agora, Tupã pensa diferente. “Gosto do que faço. Tudo o que eu aprendi valeu a pena, os desafios dessa missão me atraem.” Da época de escola, ainda mantém algumas poucas amizades. “Tenho uns amigos da cidade que sempre vem me visitar aqui na aldeia.”

Apenas a joavy (diferença)

Os dias do mês de agosto são geralmente muito gelados, em especial as primeiras horas e para aquecer uma dessas manhãs, Tupã separa um pouco de lenha, leva para a casa de rezas e em menos de cinco minutos, as chamas da fogueira já dão os primeiros sinais de vida, iluminando e aquecendo toda a Opy’i. O barulho da madeira consumindo no fogo se mistura com o som da voz do índio. Suas palavras em português são curtas e diretas, bem diferentes das proferidas no idioma dele, o Guarani. Na nossa língua, fala apenas o necessário, na conversa com os seus, até a entonação da voz muda. “Se o índio não confia, ele não fala”. É impossível não notar o grande abismo que existe entre os dois mundos e o quanto ele quer manter longe do seu povo a sombra da aculturação.
Ouvir a versão da história contada pelos brancos, aprender a língua invasora e transitar pelas salas e salões do poder representam atos de resistência para os indígenas. Atitudes desesperadas de tentar recuperar o que se perdeu há muito tempo. “Tenho orgulho de ser índio, mas sinto como se estivesse faltando algo”, diz Tupã. Hoje, os Guaranis da Tekoa Pyau dividem o espaço com a rodovia que leva o nome dos assassinos de seus antepassados, os Bandeirantes. Como nós, homens brancos, eles também têm de conviver com o barulho e a poluição de estradas e avenidas. Além da presença cada vez mais expressiva da televisão e toda a influência que ela carrega.
Como uma espécie de anticorpo ou antídoto, Tupã teve que provar do veneno para combatê-lo. É assim que ele tenta manter viva uma cultura milenar, vivendo sob certas leis que não criou. Enquanto toda a aldeia tenta se manter distante, o destino escolhe alguns poucos para um contato direto com os juruás.
Tupã deixou Parelheiros, a mãe e o avô há dezoito anos. Não é mais o neto obediente de antes. Agora já é um homem, com a pesada missão de resistir. Apesar de viver em um pequeno pedaço de terra dentro da cidade, em uma aldeia sem mata, rios ou animais, ele tenta não esquecer o desejo do velho cacique Nivaldo. “Meu avô falou que para ajudar meu povo, tenho que saber usar as coisas que aprendi na cidade.”
Manter-se diferente, guardar histórias e não revelar os segredos que só cabem ao povo indígena e sua tradição. Há coisas que o homem branco não pode saber. Entre si, os índios só falam em Guarani, nos deixam de fora do seu cotidiano, dos detalhes da vida em comunidade. A impressão é que eles nunca vão se acostumar com a presença de juruás em seu lar.

De geração em geração

A pequena Tekoa Pyau é uma grande família. Cercados pelos muros que delimitam seu espaço, os Guaranis compartilham dos mesmos medos, preocupações e alegrias. Realmente vivendo em comunidade. No cotidiano da aldeia, uma das grandes preocupações das lideranças são as crianças e os jovens. Por lá, eles são a maioria – ao todo somam mais de 250 - e enquanto crescem, os mais velhos tentam manter viva dentro de cada um deles a cultura dos antepassados. “Fazer isso não é difícil, pois eles já nascem com ela, o mais difícil é manter as coisas da cidade afastadas deles”, fala Tupã.
Mas, diferentemente do que fizemos com eles, os índios não querem impor nada aos mais jovens. A conscientização é feita aos poucos, desde crianças, por meio da convivência, das conversas e das experiências trocadas. Nas palavras de Tupã, “uma educação de vida.” Ele também fala, “todo finalzinho de tarde, a gente se reúne na Opy’i para conversar com as crianças e com os adolescentes”.
Nessas reuniões, os mais velhos tentam manter afastados certos valores, como a competição e a ganância. “Dentro da escola, a criança branca tem que ser melhor que todos e aprendem que tem que ganhar dinheiro para ter uma qualidade de vida. Aqui, nós queremos ensinar o respeito aos outros, para viver em paz.”.
A convivência com o avô, a mãe e os demais habitantes da aldeia Krukutu proporcionou ao índio a sabedoria dos antigos costumes, crenças e hábitos indígenas. Sua infância em Parelheiros foi regada a banhos na represa e longas trilhas nas matas, que sempre acabavam nas praias do litoral sul paulista, como a de Itanhahein. Para Tupã, isso é muito importante. “Eu passei muito tempo fora da família. Nos momentos mais difíceis é ela que ajuda e teve vezes, enquanto morei sozinho aqui no centro, que senti muita falta desse apoio”.
O fato de ter vivido sua adolescência estudando no centro da cidade, não impediu Tupã de viver o importante momento do rito de passagem do seu povo. Para eles, essa cerimônia simboliza o amadurecimento, o inevitável destino de crescer. “Antes do rito, a gente se afasta por um ano e durante esse tempo, aprendemos a construir nossas casas com nossas próprias mãos, a cozinhar, cuidar dos filhos. Chega uma hora que temos que viver sem nossos pais. Crescer, casar, educar as crianças. Saber dividir as tarefas com nossas companheiras e respeitar o espaço do outro”, conta Tupã.

Dois mundos

Andar pela Tekoa Pyau e não perceber o quanto a nossa cultura já está presente na vida dos índios é quase impossível. Dentro das ocas, geralmente feitas de madeira, as músicas que eles ouvem são as nossas, vestem as nossas roupas, apesar de não se importarem com a combinação de cores e estilos. A maioria tem celular que, ou está pendurado no pescoço, ou dentro do bolso.
O choque entre as duas culturas se deixa perceber nos pequenos detalhes, até mesmo na conversa em Guarani de um dos índios ao celular. Ou então, quando um povo resolve manter viva sua língua mãe, por meio de suas crianças, mesmo vivendo dentro de uma cidade como São Paulo. Todos eles sabem da sua difícil condição, principalmente, quando estão inseridos em uma grande metrópole. Conhecem seus direitos e lutam para que sejam respeitados.

Por isso, Tupã se tornou os olhos, os ouvidos e a boca de todos os índios da aldeia Tekoa Pyau. Mas apesar disso, ele ainda se mantém distante do mundo que aprendeu a conviver. Os estudos, as roupas, o contato diário e as conversas com os juruás não o despiram da sua condição primeira. “Não é fácil, mas tenho muito orgulho de ser índio.” Para o povo Guarani, esse orgulho garante o resto dos dias, a força para resistir e a sabedoria para se manter longe das coisas da cidade.
Os muros que cercam a aldeia simbolizam também a fronteira de dois mundos diferentes. Do lado de fora um olhar cansado e viciado, acostumado a estranhar tudo o que é diferente. Dentro, a consciência e o orgulho dessa diferença. “É mais fácil a gente entender a cidade, do que a cidade entender a gente”, diz Tupã.

10 de abril de 2012

Não acredito mais na palavra saudade. Pelo menos, não nessa que as pessoas saem dizendo e escrevendo por ai, como se a saudade fosse coisa pouca assim. A saudade não cabe em palavras bonitas, ultrapassa sentimentos e explode em ações. Quem realmente tem saudade, sente o coração mais apertado pela urgência da pessoa.

Por favor, não me venha com suas frases vazias....

28 de março de 2012

Seu João

Há mais ou menos quatro anos, a vida me permitiu conhecer Seu João. Naquela época, eu estagiava em uma grande empresa e era esse senhor que, todos os dias, me fazia companhia durante meu horário de almoço. Era quase um ritual sagrado encontrá-lo sentado em frente ao Parque Trianon Masp, onde ele passava os dias pedindo dinheiro para conseguir sobreviver nessa tão errada sociedade.
Nas tardes em que passei sentada ao lado de Seu João, em meio à movimentada Avenida Paulista, aprendi muitas coisas que ainda guardo no coração e no caráter. Percebi que as melhores pessoas com que eu posso conviver, são aquelas que carregam em suas palavras e atos a verdadeira simplicidade de espírito. E Seu João era uma dessas pessoas, que tanto bem fazem a minha alma. Durante nossas conversas, enquanto ele me contava suas histórias, aprendi que mesmo diante do mais terrível sofrimento, é possível manter no rosto e no coração, a mesma alegria e serenidade dos tempos de criança.
Infelizmente, há mais de um ano não vejo Seu João. Hoje, no seu lugar encontro apenas a árvore que nos acolheu nos dias de Sol. Às vezes, a lembrança daquele doce senhor ainda me faz sorrir e agradecer por ter tido a chance de conhecê-lo.
Escrevo isso, pois a vida parece nos provocar a todo instante. Explico melhor. Hoje, já formada, trabalho na região da Luz e todos os dias, cruza o meu caminho um senhor que me lembra em muita coisa Seu João. Não sei o seu nome e nem conheço suas alegrias e tristezas. A única certeza que tenho é que ele vende balas. Talvez para sobreviver. Ainda não tive coragem de me aproximar e tentar uma nova amizade. Mas esse pensamento não me abandona e toda vez me lembra, que posso estar perdendo o privilégio de conhecer outra grande pessoa.

13 de março de 2012

Quando São Paulo virou Sertão

Em meio ao velho burburinho do vai e vem de pessoas no terminal mais famoso de São Paulo, um ônibus estacionado em uma das plataformas chama atenção. Lá dentro, a cotidiana figura do cobrador dá lugar a um violeiro contador de causos. Cortinas de saco, tapetes coloridos e lampiões completam o cenário para uma viagem inesquecível.
No último sábado, os usuários do Terminal Parque Dom Pedro II embarcaram em um ônibus rumo ao sertão brasileiro, onde conheceram uma história de amor tão brasileira, que não poderia ter outro nome se não, Cordel do Amor Sem Fim.
A trama se desenrola no corredor do coletivo, onde os atores da Trupe Sinhá Zózima brincam com a imaginação do público e trazem as águas do Rio São Francisco para as ruas e avenidas da cidade de São Paulo. Enquanto as cenas da noite paulistana passam lá fora, quatro habitantes de uma pequena cidade mostram a beleza e a tragédia de suas vidas ligadas por um único e imortal amor.
No final do espetáculo os lampiões se apagam e o violeiro cala sua viola. Mas o ônibus continua lá, sempre a espera de novos viajantes.

Palavras da minha grande amiga, Anelize Moreira...

Todos meus amigos e digo amigos mesmo, daqueles que jamais dá pra se colocar um rótulo nele de "colega", quando um desses sujeitos surgem na minha vida, minha intuição logo o reconhece.
Ela me diz que não é ao acaso, e as pessoas surgem para fazer parte de uma crendice minha, em que cada um é um retalho de tecido que compõe uma grande e bela colcha colorida que é a minha vida.
Alguns tecidos rasgam, mancham, perdem a cor com o tempo..outros se mostram cada vez mais bonitos com o passar dos anos. Cada um com a sua missão, fica o tempo necessário, nem mais, nem menos, apenas o devido.
Você Mi, com certeza é uma daqueles retalhos azuis, claros, escuros, mesclados, azuis esverdeados, com florzinhas roxas, amarelas... sem muito exageros, apretechos, caprichosos ...
E para dar sentido a grande colcha, quando olho a estampa que você representa, lembro as mais belas virtudes que vejo em mim. Você me lembra de que sou um ser "social" e ressuscita toda paixão, toda revolta e toda compaixão pelo ser humano.
Você deve se perguntar, porque a Ane escreveu isso? Realmente não sei te dar uma resposta concreta. Não é seu aniversário, dia das mulheres já passou, também não é dia do jornalista e nem do amigo.
Lhe escrevo, porque por vezes as palavras ficam aprisionadas nos meus "cadernos", em mim e percebo que a beleza delas reside em exatamente fazê-las existir, fazer com que cada sentimento seja visto, cheirado, tateado, enfim...não sei apenas senti e coloquei aqui. Apenas queria lhe dizer, obrigada pela sua humildade, simplicidade e por estar sempre por perto.
Percebi que cada retalho só ganha cor, assim, compartilhado.

Beijos
..

17 de janeiro de 2012

Uma amizade verdadeira não significa não decepcionar. Significa saber reconhecer erros e ser humilde o bastante para se desculpar. Significa não esquecer e se afastar, mesmo diante de paixões passageiras ou de um grande amor. Não acredito em uma amizade que depende de condições ou de um tempo livre, isso não existe. Um amigo de verdade jamais mente ou usa de artimanhas para se mostrar presente. A amizade não é forçada, ela acontece e permanece. Uma eterna relação, nem sempre estável, que envolve a entrega de ambas as partes.

5 de dezembro de 2011

Que a música me mantenha viva!!!!
Voltei! Só não sei por quanto tempo. Talvez o tempo que dure uma leitura ou uma lembrança. É estranho, mas há momentos em que não me encontro em mim. Onde está aquela eterna ânsia de viver? A coragem que um dia pensei garantir o resto dos meus dias? Onde estão todos? Reconheço que estou numa nova fase da vida, mas será preciso mesmo perder tantas coisas para viver algo diferente? Parece-me que assim é a vida, perdemos e ganhamos. O mais estranho é saber que a escolha é sua. É você quem decide o que será feito pelo resto dos seus dias.

2 de agosto de 2011

Culpada!

Hoje me declaro culpada!
Culpada por tudo o que eu não fiz;
Por tudo o que não sou;
Por tudo o que eu não penso;
Por tudo o que eu não sinto;
O tempo e a felicidade podem iludir facilmente, mas nada é pior do que a indiferença dos dias de pouca sensibilidade.
Bom mesmo, é quando a força de um pequeno e único sentimento explode e sacode qualquer marasmo que possa afetar o lugar onde estão guardados todos os outros.

6 de junho de 2011

Vila Alpina tem albergue para acolher pessoas em situação de rua





Se não fosse pela placa com as inscrições Centro de Acolhimento, o Albergue Porto Cidadão passaria despercebido pelo olhares menos atentos. Quem cruza a esquina da Rua Iguará com a Costa Barros, zona Leste de São Paulo, se depara com um grande portão de ferro cinza. Lá dentro, as paredes brancas e o som tranqüilo de uma música de fundo ajudam a deixar o ambiente mais acolhedor.
As portas do Albergue Porto Cidadão ficam 24 horas abertas. Quem procura os serviços da casa, ganha produtos para a higiene íntima como sabonete, talco e aparelho de barbear, assim como um lugar para se banhar, lavar sua roupa e se alimentar. Por ano, o centro de acolhida da Vila Alpina atende 57 mil pessoas em situação de rua. “Diariamente, nós servimos 50 pratos na hora do almoço, além do café da tarde”, diz a diretora Shirley Maria. Além dos atendimentos durante o dia, os 21 funcionários do albergue trabalham para tentar suprir um pouco das necessidades dessa população durante a noite. “Ao cair da noite, eles começam a chegar, tomam banho, jantam e vão dormir. Na manhã seguinte todos acordam bem cedo, tomam o café-da-manhã e vão embora”, completa.
Porém, nem todos deixam a casa após os primeiros raios de sol. Aqueles que já não conseguem sobreviver sozinhos nas ruas, seja por motivo de doença, seja pela idade avançada passam o dia todo no albergue. “Hoje, cerca de 10 pessoas que moram aqui”, conta Shirley.
Além das necessidades básicas, como alimentação e um lugar decente para dormir, o Albergue Porto Cidadão também oferece outros tipos de serviços à população de rua. São oficinas de artesanato, palestras e discussões com as assistentes sociais, sobre variados temas e reuniões dos Alcoólicos Anônimos (AA).
Sentado em uma das mesas do refeitório, enquanto termina sua refeição, Sergio Daniel Navarro, 27 anos, fala sobre sua experiência na instituição. “Eu participo das aulas de artesanato e aprendi a fazer um tapete de tela e tecido. Gosto muito daqui, ocupo minha mente e converso com outras pessoas”, conta. Ele já freqüenta a casa há quase dois anos e diz que é fã dos pratos do lugar. “A comida é excelente”, diz.
No Albergue Canto Cidadão, toda última sexta-feira do mês tem festa. Em volta de uma mesa com bolo e brigadeiros, todos os usuários se reúnem e celebram mais um ano de vida dos aniversariantes da vez. Celso Aparecido da Silva está na instituição há duas semanas e já comemorou seus 25 anos com todos. Depois dos parabéns e de experimentar as guloseimas da festa, eles voltam para suas atividades. Enquanto uns vão para os quartos, outros assistem ao jornal na pequena televisão instalada em um dos corredores do lugar.
Com a ajuda de um amigo, Ademir Batista dos Santos, 59 anos, tenta concertar a fivela do cinto que usa todos os dias. Ele conta que depois do acidente que tirou os movimentos da sua mão direita, realizar atividades simples ficou mais difícil. “Eu trabalhava com fundição, carregava peças pesadas de ferro e agora, acabou tudo”, lamenta. Hoje, ele ganha a vida entregando panfletos na Rua Xavier de Toledo, região central de São Paulo.
Há cerca de cinco anos, Batista saiu de casa, deixando para trás sua esposa, quatro filhos e oito netos. “Eu tinha tudo e por causa da bebida, joguei tudo para o alto”, conta. Há seis meses no albergue, ele freqüenta as reuniões do AA e tenta passar os dias da melhor maneira possível. “Eu sou muito brincalhão, gosto de mexer com todo mundo, já acordo alegre. Não adianta ficar de cara amarrada, reclamando da vida, isso não vai me ajudar em nada”, diz.
O Albergue Porto Cidadão é fruto da Pastoral de Rua da Igreja Nossa Senhora do Carmo, na Vila Alpina. O trabalho começou com saídas durante a noite para levar pratos de sopa para as pessoas que estavam nas ruas. Hoje, a instituição recebe uma verba da Prefeitura para ajudar nas despesas e continuar com a missão daquele antigo grupo.

19 de maio de 2011

Preciso confessar...

Que já não sou mais a mesma. Revirando velhos textos, encontrei palavras que não parecem ter sido escritas por mim. Descobri uma pessoa que já não cabe na rotina dos meus dias. Alguém que não se importa em passar uma noite de sexta-feira em casa, desde que acompanhada de um bom livro e o eterno violão. Alguém que guarda a alma de uma eterna sonhadora, como escreveu uma querida amiga.
Não me levem a mal, não estou sendo ingrata com o tempo que passou, com o que aprendi e vivi. Claro que aconteceram muitas coisas dignas da minha eterna gratidão. Apenas percebi que os sonhos também enferrujam com a falta de exercício e a culpa é toda minha. Eu não reclamo mais, não saio pelas ruas em busca de sensibilidade e esperança. O que mais temia aconteceu. Acomodei-me! Apeguei-me a pessoas e momentos que deveriam contribuir para algo maior que isso.
Prova disso é esse texto. Há muito, não parava para perceber o que se passava aqui dentro e descobrir o que realmente me fará feliz daqui a alguns anos. Quando talvez, algumas pessoas importantes para mim, estiverem longe e eu precisarei andar por mim mesma.
Um dia me disseram que os sonhos são exclusividade de jovens estudantes, que pensam em mudar o mundo apenas com a força do desejo e da revolta. Que com o tempo, eles percebem que tudo não passa de uma simples ilusão. Será mesmo que nosso destino é se render ao ceticismo? Não podemos alimentar os mesmos sonhos e carregar a mesma inocência desses que anseiam por um mundo melhor?
Enquanto revivia alguns momentos que estão estampados nos antigos textos do meu blog, percebi o quanto sinto falta desses sonhos, de me entregar a essa ilusão e me perder nela até o final dos meus dias. Sei que nenhum dia é igual ao outro, que o mundo não espera que eu esteja pronta e preparada, mas a essência deve continuar e incomodar até chegar o ponto de chorar com o que escrevi.

2 de fevereiro de 2011

Mesmo Assim














As pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas;
Ame-as mesmo assim!

Se você tem sucesso em suas realizações, ganhará falsos amigos e verdadeiros inimigos;
Tenha sucesso mesmo assim!

O bem que você faz será esquecido amanhã;
Faça o bem mesmo assim!

A honestidade e a fraqueza o tornam vulnerável;
Seja honesto mesmo assim!

Aquilo que você levou anos para construir, pode ser que seja destruído de um dia para outro;
Construa assim mesmo!

Os pobres têm verdadeiramente necessidade de ajuda, mas alguns deles podem atacá-lo mesmo se você ajudá-los;
Ajude-os mesmo assim!

Se você der ao mundo e aos outros o melhor de si mesmo, correrá o risco de se machucar;
Dê o que você tem de melhor mesmo assim...

Madre Teresa de Calcutá

25 de novembro de 2010

Nem sempre o ato de se entregar de corpo e alma basta para que algo se realize plenamente. Antes disto, é preciso muita sabedoria para compreender que certas coisas não podem ser...

2 de outubro de 2010

Estudantes buscam entender a dinâmica e as particularidades dos conflitos armados.



Todas as cadeiras ocupadas. No corredor, pessoas sentadas em bancos feitos de caixas de papelão. Afixada na tela do cinema, uma faixa anunciava que ali se realizava a 9ª edição do Curso de Informação sobre Jornalismo em Situações de Conflito Armado e outras Situações de Violência, do Oboré. Enquanto o sol saia e esquentava, aos poucos, a fria manhã do último sábado (25/09), estudantes de várias universidades do país chegavam à Matilha Cultural, localizada na Rua Rego Freitas, 542, na Vila Buarque, para tentar ser um dos 25 selecionados desse módulo.
Lá dentro, um mundo de possibilidades. Tudo sobre os conflitos armados e o respeito à vida humana. O pessoal do Oboré, da Matilha Cultural e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) prepararam uma manhã deliciosa para aqueles que se interessam pelos humanos e seus direitos.
Primeiro, o documentário José Hamilton Ribeiro, o príncipe dos repórteres em homenagem ao jornalista, conhecido por ser o único repórter brasileiro a cobrir a Guerra do Vietnã. Entre depoimentos de amigos e familiares, se desvenda um Zé Hamilton com uma rara sensibilidade, um verdadeiro jornalista à moda antiga, romântico. Logo em seguida, as imagens do trabalho feito pela Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) nas mais diferentes regiões do planeta, como Somália e Iraque, prendiam a atenção dos futuros jornalistas.
Depois das imagens, as palavras do novo chefe do CICV para a Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, Felipe Donoso ajudaram a complementar as informações sobre a atuação da organização em conflitos armados e outras formas de violência.
Entre uma explicação e outra, Donoso falou sobre os principais valores do Comitê, o que permite aos seus voluntários ajudarem a todos que precisem, independentemente de partido político ou grupo armado. “Temos como principal bandeira a neutralidade e a independência, justamente para garantir nossa independência não fazemos parte da ONU e os países doares podem dizer onde colocar o dinheiro que doam, mas não como utilizá-lo.”
Ele também diz, “que em uma guerra a principal consequência é o sofrimento humano. Por isso, nosso objetivo é fazer tudo o que for necessário para restabelecer os mecanismos afetados em uma sociedade pelos conflitos armados.”
Mas, o dia não acabou por aí. Na coletiva de imprensa, os estudantes mostraram seu interesse. Eram muitas perguntas, para pouco tempo. O que não impediu de aparecer questões sobre a ação do CICV no Rio de Janeiro, na Somália e o que fazer com os conflitos agrários na região norte do Brasil.
Depois de respondidas todas as perguntas, chegou a hora dos estudantes se questionarem. Em poucas linhas, eles tiveram que mostrar por que merecem fazer o curso. Falar das suas verdadeiras razões para estarem lá.

19 de julho de 2010

O amor companheiro

“ O amor companheiro é o acolhimento da nossa maior autenticidade, o descanso dos papéis sociais representados, a tolerância sem superioridade com nossas mesquinharias e nossos momentos de alma pequena, quando nada vale a pena. É o único lugar onde se pode falar abobrinhas alternadas com as mais sérias confidências, aquilo que se fala para quem se confia, em quem se tem fé, em quem se acredita.”

Francisco Doudt da Veiga

7 de julho de 2010

Mais uma história


Na mesa da sala o futebol de botão, no coração a esperança de um Brasil campeão. Mas, ele não sabe, não sabe que sua vida seria interrompida. Felizmente, sua inocência o manteria vivo, com esperança. Que direito eles tem de afastá-lo da escola, dos amigos, de privá-lo de um lar? Ele não tinha como saber que a promessa do pai nunca seria totalmente cumprida. “Espera, na Copa estaremos de volta .”
Em apenas uma tarde, tudo mudaria. Casa, rua, bairro, Estado. Por um bom tempo, não teria mais o carinho da mãe. Pela última vez, o pai arrumaria os goleiros de seu futebol de botão. A última visão dos pais juntos. Mas, em nenhum momento se quer, enquanto tentava se adaptar e entender a nova vida, ele se cansou de esperar. Esperava como se fosse o primeiro dia, mesmo sem saber ao certo o que viria depois dessa espera.
Então, firme ele se manteve. Nada podia afastá-lo da doce esperança de rever os pais. Enquanto a angústia nascia no silêncio do telefone e explodia no vazio da rua, a varanda da casa do avô se tranformava nos olhos do coração. É injusto obrigar um ser tão inocente a entender essa ausência tão repentina.
Um dia, como que trazida pelas mãos da inocente esperança, sua mãe finalmente chega, sozinha. Na cama, o abraço há muito esperado, há muito roubado. Sem entender como e por que, ele se tornou órfão de um pai herói, de um pai torturado e silenciado pelos braços fortes dos anos de chumbo.
A intolerância da ditadura escreveu inúmeras histórias como essa. Calou vozes e levou muitos pais, mães, filhos... Como justificar tamanha barbárie? Como passar por cima de tanta dor, de tantos sonhos e famílias violados? Esquecer!?... Mas, a história pode ser contada por várias vozes e talvez a única que nos de um acalanto seja a da inocência. O ponto de vista dos que, naquele época, viviam os sonhos e a doçura da infância.

20 de junho de 2010

Região central de Itaquera pode abrigar Casa da Memória

Antiga casa do chefe da estação vai passar por reformas para preservar a história do bairro. Iniciativa partiu dos próprios moradores que querem a revitalização do centro



Itaquera. Bairro das fazendas de café, das pedreiras, dos imigrantes. Entre as tantas histórias do bairro, a locomotiva 353, mais conhecida como Maria Fumaça é uma das mais marcantes na memória dos antigos moradores. Fundada em 1875, a estação de trêm ainda sucita muitas discussões.
Demolida em 2004, para não atrapalhar as obras de extensão da Radial Leste, a estação tinha uma casa, que abrigava o chefe da ferrovia. Agora, os moradores solicitam, junto a subprefeitura, a transformação da antiga moradia em museu para preservar a história da região.
Esse projeto, nomeado Casa da Memória, faz parte do esforço de representantes do bairro para revitalizar o centro de Itaquera, que também inclui a conclusão das obras do Parque Linear, da Praça da Estação, do baixo viaduto e da passarela metálica.
A aposentada Madalena Pellicci Monteiro, 74, faz parte desse movimento para salvar a estação de Itaquera e afirma, que a Maria Fumaça era muito importante para a região. “A vida de Itaquera estava toda naquela estação e a casa do chefe representa a simplicidade do lugar”.
Pellicci nasceu e cresceu em Itaquera e luta para manter viva a história do bairro. “Esse lugar é o ar que respiro, por isso me interesso tanto por sua história. É uma paixão para mim”.
A aposentada participa das reuniões do Conselho Gestor, que conta com o apoio da população e autoridades da região e afirma, que a subprefeitura tem verba para recuperar a casa e tranformá-la em um museu. Mas, segundo a assessoria de imprensa do órgão, a reforma da antiga moradia do chefe da estação já foi licitada e deve começar ainda este ano, porém, não há previsão para a conlusão do projeto de memória.
Mas, nem todos concordam que a Casa da Memória seja a melhor opção para Itaquera. Mesmo respeitando a opinião dos que querem a reforma da antiga moradia, o advogado Francisco Nicolau, 84, se diz a favor da modernidade e acha que a despesa com as obras é dispensável. “Além do lugar ser pequeno, para abrigar um museu, a subprefeitura também terá que contratar vigias para cuidar do local.”